top of page

Se eu fosse um homem psicanalista

  • Mariah Neves Guerra
  • 7 de mar.
  • 3 min de leitura
As fiandeiras, Velázquez, 1657
As fiandeiras, Velázquez, 1657

Se eu fosse um homem psicanalista, especialmente branco, eu não estaria escrevendo este texto. Enquanto preparo o almoço e sinto a raiva de ser uma mulher psicanalista, enquanto leio um post, uma mensagem no WhatsApp, corto o frango e me preparo para os atendimentos da tarde. Eu não precisaria escrever este texto anunciando que sou uma mulher psicanalista, porque todos ao meu redor saberiam disso, e alguns mais, especialmente aqueles colegas que me indicariam de olhos fechados sem que se tivesse que provar quase nenhum percurso intelectual, institucional e clínico.  


Se eu fosse um homem psicanalista, especialmente branco, eu não precisaria constantemente provar entre colegas o meu percurso intelectual, institucional e clínico, seja para meus colegas homens, seja para minhas colegas mulheres. Afinal, elas mesmas estão lutando contra seus próprios demônios e contra os demônios dos outros, e mesmo para elas preciso provar que estudo há mais de 15 anos os conceitos de angústia, estranho, as relações da psicanálise com as artes, com as teorias de gênero e sexualidade, que durante esses 15 anos passei por duas longas formações em duas diferentes instituições de psicanálise, e sigo em uma delas, que trabalho na clínica diariamente há 13 anos, que vem dali o meu ganha-pão, que me dedico a esse trabalho todos os dias, seja atendendo, seja estudando sozinha ou em grupo, seja dialogando com colegas. Porque se eu fosse um homem psicanalista, especialmente branco, eu não precisaria ficar o tempo inteiro me provando e me repetindo. Porque até a memória funciona melhor para os homens, a intelectualidade, a seriedade, o trabalho duro caem melhor em suas imagens, tão mais próximas da imagem dos médicos psicanalistas Freud e Lacan.  


Se eu fosse um homem psicanalista, especialmente branco, eu não receberia mensagens como: “você ainda atende?” Ora, por que eu não mais atenderia ? Por que teria mudado de profissão? Por que teria deixado de trabalhar? Por que teria engravidado? Por que estaria cuidando dos idosos da família? Por que teria me casado e precisaria cuidar da família? Por que qualquer coisa seria cogitável para uma mulher largar a profissão à qual se dedica em seus estudos há cerca de 20 anos? Um homem psicanalista, especialmente branco, mesmo que não se saiba seu percurso, formação, lhe basta uma camisa social para estar ao lado dos médicos, e sua respeitabilidade é imutável, e não haveria, jamais, motivo algum para mudar de profissão, mesmo que seus nomes estejam em listas de assediadores de mulheres, incluídos suas pacientes.  


Uma mulher psicanalista precisa zelar pelo seu nome e reafirmar seu percurso intelectual e trabalho clínico em seu nome, insistentemente, entre seus colegas homens e mulheres. Porque se algo ruim aparece em seu entorno, é o seu nome que é questionado, mesmo se quem fez a merda foi um homem; afinal, não teria ela passado pano? Afinal, porque estaria ela nessa instituição? Afinal, se ela tem qualquer proximidade, ela é conivente, e seu nome é manchado, algo próximo à letra escarlate.  


Já um homem psicanalista, se seu nome aparece, mesmo em uma lista de abusadores, seus colegas podem até ler isso com inveja, porque o nome daquele colega apareceu, porque não importa onde esse nome esteja; seu nome é desejado, supostamente, por seus colegas, esses mesmos que o protegem, que o indicam, que o admiram como intelectuais, mesmo que não se saiba de seu percurso, e caso tenha algum percurso, e uma camisa social, será protegido por todas as instituições que o cercam, sem macular seu nome ou o da instituição, afinal, violência e tradição, essas irmãs gêmeas, ironicamente convocadas para ainda se dizerem: “isso faz parte da história da psicanálise.”  


Mesmo sem se provarem, precisamente porque nunca precisam se provar a ninguém, pois já estão de saída autorizados de si e de seus pares, cometem as violências que cometem e ainda conseguem o que quase nenhuma mulher consegue: são parte da história da psicanálise. Seus nomes são a história da psicanálise, fazendo muito ou pouco intelectualmente, mesmo cometendo as piores violências. Ainda que os nomes nas listas sejam deles, a letra escarlate ainda é nossa. Insistimos: “a vergonha precisa mudar de lado.”  



 
 
bottom of page